Cara lá de cima,
venho, hoje, lhe agradecer por mais um ano. E QUE ano! Como bem sabes, há exatos 365 dias eu estava me submetendo a outros costumes, outra cultura, outro país. Eu realizava um sonho. O dia 1º foi todo dormindo, afinal, a madrugada foi celebrando! E não tinha quem não conseguia identificar a felicidade que eu sentia. Conheci lugares lindos, vivi experiências incríveis, venci alguns medos. Comemorei vinte-e-dois-anos comendo marshmellow numa fogueira sobre a neve e passei o carnaval assistindo Olimpíadas de Inverno.
Alguns meses depois, tomei uma das grandes decisões do ano. E eu precisei de coragem (“pra conseguir vencer...”). De muita coragem. Sim, eu tive medo. Mas não me arrependi. E como cada escolha é uma renúncia, abdiquei de muitas coisas por essa decisão e me preparei para sofrer reflexos talvez ainda não sentidos. Me fiz bem. Me dei uma chance.
E já que era um ano de experiências (e de coragem!), eu fui a uma festa que chamam, por aqui, de micareta. Vivi uma vida, digamos, bem boemia. Gritei “Juuuulio César”, “tomaaada aérea” e Jaaaaabulani durante a Copa do Mundo. Fiz prova sob os eflúvios evanescentes do processo destilatório da cana-de-açúcar e com vuvuzela pendurada no pescoço. Perdi as contas de quantas vezes fui ao Villa Country, ao Siga la Vaca, ao The Joy, ao Da Silva, ao Macfill. Perdi as contas de quantas vezes passei a madrugada vagando pela cidade e voltando pra casa quando as pessoas acordavam pra trabalhar. Quer dizer, quando eu voltava pra casa. Exagerei. Me permiti exagerar. Eu precisava. Eu precisava fugir.
Passada a primeira metade boemia do ano, eis que chegava a hora de, pelo menos tentar estudar e voltar a vida. A prova que eu tinha fingido que não existia durante 4 anos e meio batia a minha porta. Me matriculei no cursinho e prometi que aquele semestre seria diferente do anterior. E foi, mesmo. Fiz uma pausa pra me divertir sem temor nos Jogos Jurídicos, no último deles! E apesar da minha intimidade com o sono não ter deixado eu ir para o cursinho muitas vezes, fui lá e destruí a primeira fase. Fiquei surpresa, afinal, eu não fiz o que podia ter feito. Comemorei!
Claro que a Comissão de Formatura sempre esteve por aqui, mesmo em meio a tudo o que eu precisava cumprir. E foi o ano em que decisões importantíssimas precisaram ser tomadas em minutos, de trabalho forte, de planilhas... haha, de muitas planilhas e noites mal dormidas. Foi ano de brigas e desentendimentos que ultrapassaram o liame do que era a Comissão e do que era amizade. Foi ano de ouvir duras e severas críticas. Me decepcionei com pessoas e até mesmo com o meu (nosso) sonho. E como as minhas energias foram sugadas.
Não consegui lidar com inúmeras situações. Não consegui vencer obstáculos pessoais e decepcionei a mim mesma (e a outros) com a minha irresponsabilidade. Acho que perdi forças que não voltaram até hoje!
Não consegui controlar sentimentos como fazia há uns belos 4 anos. Tola, que achava que era possível. Me machuquei quando tudo o que eu não queria era, exatamente, me machucar. Me machuquei em dobro. Perdi o foco. Me decepcionei. Decepcionei. E vivi momentos tão bons que tento superar os ruins pra que eles fiquem aqui guardadinhos... pra que eu possa lembrar deles com um sorriso no rosto. E um apertiiiinho no coração.
Houve um tempo, em meio a OAB, a monografia e a falta de foco, que a gente teve que se desdobrar em muitos, muitos de nós mesmos pra fazer o que chamamos de o melhor Bota Fora de todos os tempos do mundo, o melhor Apitaço de todos os tempos do mundo, a melhor Cervejada de todos os tempos do mundo, e a melhor Formatura de todos os tempos do mundo. Eu surtei! E, se não faltasse tão pouquinho, acho que teria, mais uma vez, decepcionado a mim mesma e pedido pra sair. Passei dias sem agüentar ir para a faculdade. Desejei, com todas as forças, que tudo acabasse. Me perdi... essa não sou eu!
Tempos depois, concretizamos o melhor Bota Fora, o melhor Apitaço e a melhor Cervejada de todos os tempos do mundo. Destruí (por pouco) a OAB, virei (quase) Dotôra, fui aprovada na banca e, por uma ajuda daí de cima, “passei de ano”. Sofri perdas.
De repente, chegou o fim. Que triste, que nostálgico! De repente, chegou a realização de (mais) um sonho. Chegou dia 11/12 e tu-do pelo que eu tinha lutado durante três anos durou não mais que meia hora. E foi a meia hora mais feliz que eu já vivi até hoje! Foi uma “meia hora” carregada da alegria mais pura do mundo, de sensação de missão cumprida, de sentimento de vitória! Eu nunca vi TANTOS olhinhos queridos brilharem TANTO... e juntos!
Tudo (ou pelo menos a maioria) aquilo que tinha roubado minhas energias tinha chegado ao fim. Mais uma vez, eu precisei fugir. Embarquei rumo ao Rio de Janeiro pra fingir que a “meia hora” ainda não tinha acabado! E foi a vez de viver mais bons e deliciosos momentos. Mas, o embarque virou desembarque, de repente. Foi mais de leve, mas o balde de água fria chegou. E faz questão de ir embora lentamente.
Ele chegou pra me lembrar que tudo tinha mesmo acabado e que eu precisava aceitar algumas-várias coisas. Me senti sozinha, me senti sem rumo algum e mais uma vez fui irresponsável.
E todas as vezes que achei que não ia conseguir, que surtei, que fui irresponsável, que me machuquei, que , sei lá... em todos os momentos que vivi, a família que me permitiste escolher esteve lá comigo. Até porque, a família mesmo, por óbvio e abençoadamente sempre esteve por aqui.
Mas aqueles de quem sabes que falo, às vezes mais uns, às vezes mais outros, estavam lá. Em cada um deles me apoiei de alguma forma... e eles estavam lá pra mim, fazendo parte de mais um do combo apelidado de “os melhores anos de minha vida”. Me re-aproximei de pessoas queridas que não quero me distanciar. Dei força, também! E ajudei. Me decepcionei por, como sempre, me doar demais, esperar demais. Superei.
E eu agradeço por tudo, mas por absolutamente tudo isso. Até com o que eu não soube lidar. Até pelos meus erros. De tudo, certamente Você queria me ensinar alguma coisa. Algumas delas, confesso, é difícil de entender ou de aceitar. Mas todas eu precisava viver: eu precisava ter uma vida boemia... afinal, não é aos 30 que eu vou tê-la; eu precisava saber que têm coisas que a gente não pode controlar; eu precisava dar Adeus a todas as minhas irresponsabilidades, eu precisava aprender que o meu sucesso só depende de mim mesma; e eu precisava sentir que a nossa mente é, de fato, poderosa demais... e que com ela não se pode brincar.
Obrigada por um ano de saúde, de família, de felicidade, de vitórias e de TANTAS realizações. Não foi fácil, não. Mas Você me permitiu vivê-lo. E, depois de tantas lições, algumas que ainda vou tentando entender, me permito viver intensamente os próximos 365 dias que estão por vir. E que eles sejam maravilhosos!
Obrigada!


